sábado, 25 de janeiro de 2014

O Verdadeiro Ciclo da Vida



O homem nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre. É assim que a gente aprende na escola sobre o ciclo da vida. Mas será que de fato a gente começa a viver quando nasce? Não me refiro ao dilema moral a respeito de quando efetivamente a vida começa, com todo o seu viés científico. Refiro-me muito mais ao aspecto filosófico, sobre quando de fato pensamos a respeito de nós mesmos, quando nos damos conta de que somos um ser vivo, e nos damos conta de passado, presente e futuro.


"Penso, logo existo" (René Descartes, 1596-1650)

A gente não costuma pensar nisso, mas fui assaltado por estes pensamentos nestes dias. Me dei conta de que, para nossos pais, a nossa vida pode ter começado desde a ideia de ter um(a) filho(a). E que nenhum de nós se lembra de quando nossos pais tiveram a certeza de que estávamos no ventre da mãe. Os primeiros chutes, primeiras mexidas na barriga. Ou até mesmo depois de nascido, o parto - curiosamente éramos o centro das atenções, mas não nos dávamos conta disso. A primeira vez que a mãe pegou no colo, a festa que podem ter feito, o batismo, as primeiras palavras ditas, o primeiro dia na escola.
Para nossos pais, nossas vidas começaram muito antes do que nos lembramos, e esta parte de nossas vidas nos escapa, é apenas deles. Pra nós mesmos, tudo isso foi ironicamente ocultado em nosso subconsciente. 

Quanto a mim, as primeiras lembranças que tenho de minha própria vida são de quando eu tinha aproximadamente quatro anos de vida. São poucas e remotas, algumas confusas entre realidade e sonhos. Depois, a gente vai lembrando de outros fatos, e eles vão se tornando mais reais.

Até que, depois de um tempo, a gente começa a tomar as rédeas de nossas vidas. A gente se dá conta de quem somos, começamos a formar a nossa própria opinião, a definir uma personalidade consciente. E com isso, vamos dependendo cada vez menos dos nossos pais.

Passamos a fazer os primeiros planos, e em seguida começamos a dar passos para realizá-los. O tempo vai passando, e a gente vai vendo que a vida é muito mais do que imaginávamos. Os desenhos das casas e dos carros que desenhamos na infância, na promessa de montá-los quando adultos já não fazem mais sentido.

Os coleguinhas de escola passam a ser substituídos pelos amigos de verdade. Até que, dentre os amigos, conhecemos alguém que ascende nosso coração, e então sai de casa, e casa. Uma pessoa entre mil, alguém que acrescenta muito em nossa vida, e que também pensa o mesmo ao seu respeito. Ambos crescem juntos.

Nesse crescimento, o amor cria raízes cada vez mais profundas, até que nenhum jardim do mundo parece suficiente para ser percorrido. É preciso germinar, dar fruto. Tudo começa com ideias, com planos, e aí o filho sai da cabeça e vai ao ventre do casal.

Este bebê, que ainda não é percebido por menino ou menina, já marcou, até aí, a vida dos seus pais para sempre. Sobretudo se for o primeiro, porque os pais, que antes possuíam uma grande autonomia sobre suas próprias vidas, passam a se dar conta de que terão de cuidar de um ser completamente dependente no início. Uma mudança completa de perspectiva.

Mas o bebê não se dá conta disso. Não até que, depois de alguns anos, possa também mudar de lugar. De filho(a) a pai (ou mãe).

Pra mim, este é verdadeiramente o ciclo da vida. Parece-me assustador, e ao mesmo tempo sublime. O momento em que a criatura humana mais se parece com a do criador. Uma graça sem comparação. Um mistério, um milagre do cotidiano que nunca se repete da mesma forma.
Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário