sábado, 4 de abril de 2015

O inferno são os outros

Ainda quando era estudante primário, me lembro de conhecer uma dinâmica onde eram postos uma série de estereótipos num contexto onde haveria uma explosão fatal e existiria um abrigo onde nem todos poderiam entrar, e caberia a você escolher quem poderia ou não entrar. Talvez houvesse um político, um negro, um obeso, um idoso, um pedófilo, um homossexual, um argentino. E aí, você não poderia salvar todos, mas teria que escolher três e dizer por que os escolheu.

Essa dinâmica não é fácil, pois não existe opção certa e não existe opção errada. O que existe é o fato de que você fará escolhas baseada em seus próprios critérios e que não poderá fugir dos seus preconceitos. É isso, ou deixar que todos morram.

Mas o fato é que no dia a dia, mesmo muito longe dessa dinâmica de grupo, estamos o tempo todo fazendo nossas escolhas. Sempre que possível, escolhemos com quem queremos conviver.

Não obstante a isso, alguns sobreviventes teremos que aturar. Aquele colega de trabalho, aquele vizinho, aquele primo... Ou vamos ter que aturá-los no abrigo ou então saímos nós e nos rendemos à destruição, fugindo a vida inteira.


Tudo isso porque conviver com outras pessoas não é fácil. Mesmo quando há amor, muito amor, ao ponto de se querer passar o resto da vida com outra pessoa, não há como se evitar os atritos, os desgastes, as mágoas, até mesmo a raiva. Não há como evitar certas incompreensões.

É claro que o problema pode estar em nós mesmos. Poderíamos fazer auto-análise e identificar o que em nós poderia ser mudado. Tornarmo-nos pessoas melhores. Com muita dedicação e autoconhecimento, podemos conseguir isso.

Mas por que fazer isso quando podemos simplesmente deixar o convívio das pessoas que nos incomodam em nossas vidas? Não é mais fácil do que mudar o que há dentro de nós?

Assim, a gente vai se isolando. Porque, como disse um dia Jean-Paul Sartre, "o Inferno são os outros". Então, eu saio do inferno quando saio de perto dessas pessoas que não nos deixam em paz.

Por sinal, é interessante observar que, na língua inglesa, a expressão "deixe-me em paz", dita como "leave me alone". tem por tradução literal "deixe-me sozinho" ("alone", significa "sozinho"). Então, mais uma vez, parece que a cultura contemporânea reforça a ideia de que para estar em paz é preciso estar sozinho.

Enquanto isso, Jesus, o Cristo, declara abertamente que com a sua morte, atrairá todos a ele. E que veio para que todos tenham vida. Ele não fez distinção a respeito das manias ou dos temperamentos das pessoas. Até seria fácil constatar o quanto eram diferentes aqueles 12 que ele escolheu para serem seus amigos mais próximos. Até eles mesmos deviam ter dificuldades de atuar uns aos outros.

Paulo perseguia os 12 e depois se uniu a eles. Ele mesmo teve divergências com Pedro e, mesmo assim, não deixou que essas diferenças impedisse um ou outro de seguirem em frente em suas missões. Sabe-se que os dois tinham temperamento muito forte.

O próprio Paulo fez a recomendação, em uma das cartas que escreveu, para que as pessoas da comunidade suportam umas as outras. Dar suporte é apoiar. Mas será que também se referia a aturar?

Os que creem devem ter em mente que podem até se esquivar de ter pessoas que considerem indignas do seu convívio convivendo na mesma comunidade. Mas resta saber se, na hora do seu Juízo, estarão dispostas a renunciar ao céu para não reencontrar essas mesmas pessoas na presença de Deus.

Os que não creem devem se dar conta de que qualquer pessoa que vive em sociedade precisa dessa capacidade cidadã de apoiar os outros e até aturar em algumas ocasiões. Ou então, não resta outra alternativa senão partir para uma vida solitária no meio do mato.

Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário