terça-feira, 22 de setembro de 2015

Apologia ao individualismo

Hoje só se fala em coletividade, em diversidade, em aceitação e tolerância.
Quem resolver falar sobre individualidade corre o risco de falar sozinho.

Aí vem a tecnologia nos dominar, exigindo uma interação marcada pelo imediatismo.
A sensação dominante é de que nosso valor depende do número de visualizações, curtidas e compartilhadas obtidos.
E mesmo assim, se conseguirmos ou não, dentro de mais alguns minutos isso já não terá importância, porque outras coisas já serão mais interessantes.

Isso não nos tira do sério? Não nos deixa transbordando com tanto vazio?
Quando foi que a necessidade de aceitação social nos dispositivos eletrônicos tornou-se mais importante do que vestir-se e comer? Em todos os lugares, em todas as circunstâncias?

Todos queremos calçar todos os sapatos e opinar a vida alheia.
Mesmo que no meio de tanto conteúdo a gente nem ache mais os nossos próprios sapatos e nem se dê conta.

Quando foi que você deixou de ser você? Aliás, quantos perfis você tem?
Quando foi a última vez que você se olhou no espelho e se permitiu perceber quem você realmente é?

Você é o que você é. Tal como se percebe, tão como se sente.
Ter mais e mais pessoas te seguindo te preenche mais, não te fará mais feliz.
Mas curtir a si mesmo, sim - não será narcisismo.

Quando foi a última vez que alguém decretou: "cada um no seu quadrado"?
Estamos todos virando ao avesso, com tanta fragmentação.

E se a bateria acabar? E se o sinal cair? O que restará?
Você vai ter que escutar a voz de alguém ao seu lado, aturar alguém te tocando e te falando de amor (sem parafrasear poetas mortos).

Mas ainda sabemos fazer isso?
Olhar nos olhos, dizer palavras gentis?
Brincar com as palavras? Fazer caras e bocas?
Afagar sem pressa?

Quando vamos nos dar ao direito de deixar o tempo passar sem sentir culpa?
Quando vamos aprender a deixar o telefone tocar sem culpa?

Interagir no mundo real parece menos interessante.
É que quando você tem algo privado para fazer, não existe um botão de fácil acesso chamado compartilhar, que possa publicado e curtido depois.

Estamos realmente todos sós. A coletividade, de certo modo, é uma ilusão.
Antes que viéssemos à luz, passamos nove meses sozinhos e no escuro.
Se deu sorte, rodeado de amor, mas só.
Depois vimos a luz, e com ela a eletricidade e as conexões de dados. Enroscados nessa rede, continuamos sós.

É preciso perder o medo de fazer alusão a si mesmo.
Uma apologia ao individualismo.
Um culto ao contato pessoal.
Vamos nos dar ao direito de gozar de nossa própria intimidade, sem que ninguém saiba.

Ser amado é muito bom.
Mas só quando nosso perfil é tangível e se permite ser tocado,
Só quando se tem amor próprio,
É possível ser amado.
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